Mulemba - n.2 - UFRJ - Rio de Janeiro / Brasil / junho / 2010

Artigo:

REFLEXÕES SOBRE GÊNERO NA NARRATIVA DE PAULINA CHIZIANE: UMA LEITURA DO CONTO “AS CICATRIZES DO AMOR

REFLECTIONS OF GENDER ON THE PAULINA CHIZIANE’S NARRATIVE: A READING OF THE TALE “AS CICATRIZES DO AMOR

Maximiliano Torres
Doutor em Teoria Literária pela UFRJ
maxitorres@uol.com.br
Rua Visconde de Pirajá, 207, apt. 808, Ipanema, Rio de Janeiro.

RESUMO:
O presente artigo traça uma leitura do conto “As cicatrizes do amor”, da escritora moçambicana Paulina Chiziane, à luz da teoria crítica feminista. Para tal, começa abordando a problemática da dominação masculina enquanto agente do centro da economia das trocas simbólicas e prática corporificada, vitimando tanto as mulheres quanto os homens. Em seguida apresenta o termo gênero como uma categoria de análise e de relações, como papéis socialmente construídos, demarcados por relações de poder.

PALAVRAS-CHAVE: opressão; patriarcalismo; feminismo; gênero; mulher.

ABSTRACT:
This article presents a reading of the tale “As cicatrizes do amor”, by Paulina Chiziane, a Mozambican writer, in the light of feminist critical theory. For this, it starts broaching the problem of male domination as an agent of the symbolic exchanges economy center and embodied practice, victimizing both women and men. Following this it introduces the term gender as a category of analysis and relations as socially constructed roles, demarcated by power relations.

KEYWORDS: oppression; patriarchalism; feminism; gender; woman.

       Num convite à reflexão sobre a dominação masculina, Pierre Bourdieu alerta-nos para o fato de que, primeiramente, devemos analisar a realidade como parte integrante dela, pois a dominação de gênero se encontra no centro da economia das trocas simbólicas e esta prática está corporificada, fazendo suas vítimas tanto mulheres quanto homens. Afirma o antropólogo que:

Quando tentamos pensar a dominação masculina, corremos o risco de recorrer ou nos submeter a modos de pensamento que são, eles próprios, produtos de milênios de dominação masculina. Queiramos ou não, o analista, homem ou mulher, é parte e parcela do objeto que tenta compreender. Pois ele ou ela interiorizou, na forma de esquemas inconscientes de percepção ou apreciação, as estruturas sociais históricas da lei masculina (BOURDIEU, 1998, p. 13).

       Para o pensador francês, o corpo é o lugar no qual estão inscritas as disputas pelo poder e é nele, também, que está demarcado todo o capital cultural; é a primeira forma de identificação desde o nascimento. Por conseguinte, o sexo define a posição de dominado ou dominador. O corpo é a materialização da dominação, o locus do exercício do poder por excelência.

      Não é novidade que várias sociedades – algumas com mais radicalidade, outras com menos – colocaram e, ainda colocam, as mulheres numa posição de subalternidade perante os homens. A eles são oferecidos todos os privilégios, desde os melhores lugares à mesa, o acesso à educação, a liberdade de escolher os rumos de suas vidas, até a oportunidade de ascensão intelectual e social. A elas, simplesmente, o espaço doméstico, a responsabilidade de cuidar dos filhos e a imposição à passividade, que visa manter a supremacia falocêntrica. Em tais sociedades, vive-se sob a égide do patriarcalismo. Sobre este termo, já tão discutido, concordamos com Manuel Castells, quando explica que sua caracterização se sustenta:

(...) pela autoridade, imposta institucionalmente, do homem sobre mulher e filhos no âmbito familiar. Para que essa autoridade possa ser exercida, é necessário que o patriarcalismo permeie toda a organização da sociedade, da produção e do consumo à política, à legislação e à cultura. Os relacionamentos interpessoais e, conseqüentemente, a personalidade, também são marcados pela dominação e violência que têm sua origem na cultura e instituições do patriarcalismo (CASTELLS, 2001, p. 169).

       Essas representações sociais, engendradas pelas construções simbólicas, que colocam o homem como a norma e a mulher como o desvio, avançam para o campo político e passam a ser vistas e entendidas como a realidade objetivada. Em outras palavras, a idealização objetivada torna-se subjetiva por meio das instituições formadoras de consciência que fornecem o modo de viver à realidade, como se esta fosse constituída por uma unidade de sentido inquestionável.

      A sociedade estabelece os papéis e, com isso, elabora uma somatização cultural da dominação. Sendo assim, “a oposição hierárquica, binária, entre masculino e feminino parece fundamentada na natureza das coisas, porque encontra eco praticamente em toda parte” (BOURDIEU, 1998, p. 17). Nesta realidade:

(...) a ordem masculina está tão profundamente arraigada que não precisa de justificação: ela se impõe como auto-evidente, universal (o homem, vir, é esse ser particular que experimenta a si mesmo como universal, que tem o monopólio do humano, homo). Ela tende a ser tida como certa em virtude da concordância quase perfeita e imediata que estabelece entre, por um lado, estruturas sociais, como as expressas na organização social do espaço e do tempo e na divisão social do trabalho, e, por outro lado, estruturas cognitivas inscritas nos corpos e nas mentes (BOURDIEU, 1998, p. 18).

       Desta forma, percebemos claramente que este posicionamento, ao contrário do que pensaram por muito tempo alguns teóricos, não é um fato biológico, intrínseco à natureza humana, que coloca o macho como o ativo e a fêmea como a passiva. Mas, sem dúvida, uma construção cultural que apresenta a masculinidade como representação da individualidade e a feminilidade como representação da alteridade.

      A construção ideológica de gênero impõe às pessoas modelos de comportamento em função do seu sexo. Desse modo, numa estrutura patriarcal, todo o processo de socialização vai reforçar preconceitos e criar estereótipos para os gêneros, como próprios de uma suposta naturalização, apoiados na determinação biológica. Assim, na diferença biológica apoia-se a desigualdade social e esta toma uma aparência de naturalidade. Com isso, as relações de gênero refletem concepções de gênero, internalizadas tanto por homens quanto por mulheres. E é nesse sentido, enquanto atividade educadora, que a cultura “exerce uma ação psicossomática que leva à somatização da diferença sexual, ou seja, da dominação masculina” (BOURDIEU, 1998, p. 18).

      Em decorrência dos efeitos dessa lógica binária, questionamentos ligados ao gênero foram desenvolvidos pelas teóricas do feminismo contemporâneo, a partir da década de 1970, com o propósito de buscar a compreensão e algumas possíveis respostas à situação de desigualdade entre os sexos e, acima de tudo, entender como esta situação atua na realidade cotidiana e interfere no conjunto das relações sociais. Desde então, o gênero vem sendo utilizado como categoria analítica nos estudos feministas e, segundo as palavras de Simone Pereira Schmidt, “a homogeneidade de categorias como ‘masculino’ e ‘feminino’ passa a ser questionada, levando-se em conta seus significados sociais diversos” (SCHMIDT, 2000, p. 31). De acordo com Teresa de Lauretis:

(...) o termo “gênero” é uma representação não apenas no sentido de que cada palavra, cada signo, representa seu referente, seja ele um objeto, uma coisa, ou ser animado. O termo “gênero” é, na verdade, a representação de uma relação, a relação de pertencer a uma classe, um grupo, uma categoria. Gênero é a representação de uma relação (...) o gênero constrói uma relação entre uma entidade e outras entidades previamente constituídas como uma classe, uma relação de pertencer (...). Assim, gênero representa não um indivíduo e sim uma relação, uma relação social; em outras palavras, representa um indivíduo por meio de uma classe (LAURETIS, 1994, p. 210-11).

       Enquanto categoria relacional, o gênero aponta papéis socialmente construídos entre homens e mulheres, demarcados por relações de poder. Em outras palavras, as relações de gênero são estruturadas dentro de um sistema hierárquico de dominação, no qual o homem (masculino) é o Sujeito e a mulher (feminino) é o Outro (constituída a partir do homem), se dialogarmos com as idéias de Simone de Beauvoir. Esta distinção torna possível a ordenação da vida social em função do masculino e o consenso a respeito da sua importância e supremacia.

      Ao apropriarem-se do termo e desenvolver o conceito de gênero, as feministas postularam a necessidade de distinguir, teoricamente, o sexo biológico do gênero social, organizador das relações. A noção de gênero, neste sentido, possui um duplo caráter epistemológico: por um lado, apresenta-se como categoria descritiva da realidade social e confere uma nova visibilidade para as mulheres ao referir-se às formas de discriminação e opressão, simbólicas e materiais; por outro lado, trabalha como categoria analítica, ao possibilitar uma nova leitura dos fenômenos sociais.

      Vale lembrar que, embora o conceito de gênero tenha adquirido força com o movimento feminista e destaque enquanto instrumento de análise das condições das mulheres, ele não deve ser utilizado como sinônimo de “mulher”. E, sim, para distinguir e descrever tanto as categorias mulher e homem, como para examinar as relações estabelecidas entre ambos; “um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (SCOTT, 1990, p. 16). Nessa perspectiva destaca-se o uso analítico do conceito, pois, lembrando a opinião de Lia Zanotta Machado, “a novidade deste campo não é a sua temática, mas sim perspectivas de análise” (MACHADO, 1994, p. 4).

      Desse modo, seguindo a afirmação de Ruth Silviano Brandão de que a “literatura e outras disciplinas se encontram em muitas encruzilhadas” (BRANDÃO, 2006, p. 11), tomaremos como base a teoria crítica feminista como perspectiva de análise na leitura de “As cicatrizes do amor”, de Paulina Chiziane. Nesse conto, a escritora moçambicana, primeira mulher a publicar um romance em seu país, nos permite tal abordagem ao elaborar ficcionalmente uma problematização das relações de gênero e do papel da mulher na sociedade contemporânea. Procura demonstrar, a partir do relato da personagem Maria, a construção identitária e os processos necessários à reconstrução da condição feminina, por meio de uma denúncia às opressões pelas quais passa não só a personagem, mas grande parte das mulheres.

      Contudo, antes de voltarmos o nosso olhar para os elementos da narrativa que sustentarão nossa análise, cabem algumas observações sobre a estrutura e a linguagem do texto escolhido. Por se tratar de um conto, já carrega a concisão, a precisão, a densidade e a unidade de efeito, da qual falaram Edgar Alan Poe e Tchekhov; é o resultado de um rigoroso trabalho de seleção e de harmonização dos elementos selecionados e de ênfase no essencial. Porém, ao deslizarmos por seu enredo, nos deparamos com uma linguagem extremamente elaborada, com uma riqueza estilística, típica de poemas. Há uma quantidade de figuras de palavras e de pensamentos que emergem das páginas, podendo, a princípio, parecer dissonantes, mas que, em seguida, elaboram um acorde, colocando o leitor perante uma prosa poética de alta qualidade. Um texto, carregado de uma oralidade, que se revela a cada leitura num jogo de movimentos cambiantes, onde “a verdade sempre escapa, já que está instalada na linguagem dupla e dividida, quando percebida na sua ambigüidade de significante e significado, sujeito da enunciação e enunciado” (BRANDÃO, 2006, p. 12). Segundo a própria escritora:

Gosto de dizer que a minha literatura é isso: contar histórias. Aquilo que outras mulheres fazem dançando e cantando, eu faço escrevendo, como as velhas que através da via oral continuam a contar histórias à volta da fogueira. Eu apenas trago a escrita, de resto não sou diferente das mulheres da minha terra, das mulheres do campo (Paulina Chiziane, Entrevista ao Maderazinco).

       Essa declaração, dada a uma revista literária de Moçambique, nos remete ao conceito de experiência atribuído por Walter Benjamin em “O Narrador”. Segundo o filósofo alemão, em seu tão conhecido ensaio, as melhores narrativas escritas são aquelas que não se distinguem das narrativas orais, que se tornaram possíveis graças a duas experiências que se aliam como expressão de um trabalho artesanal: a experiência do viajante, do comerciante (quem vai) e a experiência do camponês (quem fica). Para Benjamin, tanto aquele que foi e percorreu outras geografias quanto aquele que se manteve em seu solo natals estão arraigados de histórias para contar e partilhar. Desse modo, a narrativa é comunicação artesanal e encerra em si uma dimensão prática, de um conselho, de um ensinamento moral ou de uma forma de vida.

      Paulina Chiziane, ao contrário de muitos de seus conterrâneos, busca os temas de sua literatura no cotidiano, nas relações familiares, na política doméstica. Moçambicana, natural de Manjacaze, na província sulista de Gaza, estudou em Maputo, tendo aí, não só a possibilidade de juntar à sua língua natal, o chope, o ronga e o português (resultado da colonização), mas de conhecer várias manifestações e tensões culturais de seu país. Essas experiências de vida, como as adquiridas por meio das leituras de inúmeras obras de escritores africanos, foram fundamentais para a construção da sua escritura. Em entrevista, concedida na Fliporto 2008, declarou:

Se os outros [escritores] colocaram pedra para a construção de um edifício de Nação, talvez eu vou acrescentar o meu ponto: falar da necessidade do relacionamento harmonioso entre seres humanos. (...) a literatura do Marcelino dos Santos, Pepetela e de tantos outros nomes serviram para criar a mim. Eu sou a voz da nova geração (Paulina Chiziane, Entrevista na Fliporto 2008).

       Em “As cicatrizes do amor”, a autora discorre sobre um fato ocorrido em uma festa, que trará à tona um episódio do passado, colocando em discussão os valores da tradição e os da modernidade.

      O conto é narrado em primeira pessoa por uma voz feminina que, em algumas partes, se apresenta presa aos costumes – como mostra no início da narrativa ao afirmar: “Diabos me levem se não estou bem nesta rodada de mulheres sentadas na areia e os homens nas cadeiras” (CHIZIANE, s/d, p. 97), e quando critica a protagonista: “Da blusa já levantada, espreitam os seios surrados de mil beijos, desfraldadas as cortinas dos teus segredos, és indecente, Maria!” (CHIZIANE, s/d, p. 98) –, e em outras um pouco mais liberta de uma rigidez institucional, quando aparenta estar quase solidária com a dor de Maria: “É uma revivência, um quadro bem evidente nos arquivos da tua memória, e nós não largamos um só suspiro, hipnotizados pela tua dor” (CHIZIANE, s/d, p. 98).

      Essas manifestações titubeantes da narradora revelam, na esteira do pensamento de Heleieth Saffioti e de Suely de Almeida, que “o inimigo da mulher não é propriamente o homem, mas a organização social de gênero cotidianamente alimentada não apenas por homens, mas também por mulheres” (SAFFIOTI & ALMEIDA, 1995, p. 5), prisioneiros de uma ideologia hegemônica.

      A narrativa se passa em Inhaca, uma ilha situada à entrada da baía de Maputo, no sul de Moçambique. Lá “Todas as gargantas regam-se na fonte do uputo que flui aos borbotões. O ambiente confortável é de gente humilde, sincera, andrajosa e descalça” (CHIZIANE, s/d, p. 97). Há uma reunião “na caserna de Maria” (CHIZIANE, s/d, p. 97), onde quem entra “bebe alegrias e esquece o resto”, pois, naquele “campo de deslocados na Inhaca, o povo triste recria felicidade” (CHIZIANE, s/d, p. 97).

      A festa segue “na delícia daquele paraíso de miséria” (CHIZIANE, s/d, p. 97) até que alguém começa a ler um jornal velho que traz a notícia do abandono de duas crianças. Nesse momento, gera-se uma polêmica sobre a responsabilidade daquele ato. Os convidados colocam a culpa nas mães das crianças, sem sequer aventar qualquer outra possibilidade:

– Veja isto, compadre. Duas crianças abandonadas pelas mães.

(...)

– Alguém as deitou fora. As mulheres estão doidas. (CHIZIANE, s/d, p. 97).

       Se, como nos revela Rosiska Darcy de Oliveira, “o endeusamento da maternidade se fazia acompanhar de toda uma ideologia de submissão, de conformismo, de aceitação de fronteiras” (OLIVEIRA, 1991, p. 144), fica claro que esses “pseudo-privilégios que tendem a camuflar a situação de injustiça” (PINTASILGO, 1981, p. 22) trariam à mulher toda a carga de responsabilidade perante o filho, tornando-a culpada por qualquer acidente.

       Em meio à balburdia, Maria discorda de seus convidados e levanta seu argumento: “– A maldade nasceu antes da humanidade. A culpa cabe às mães, mas é de toda a sociedade” (CHIZIANE, s/d, p. 97); sendo, em seguida, acusada por uma voz masculina de estar cometendo um equívoco por culpa da embriaguez: “– Não fuja da verdade, comadre, que a culpa está com as mulheres. O que dizes é suruma de bebedeira, estás embriagada, sim” (CHIZIANE, s/d, p. 97).

      A repetição da sentença “a culpa está com as mulheres” (CHIZIANE, s/d, p. 97) ratifica o pensamento de Bourdieu sobre a ação exercida pela cultura na diferença sexual, uma vez que “a voz de limão do homem duro era palha na fogueira tosca” (CHIZIANE, s/d, p. 97).

      Assim como no significado da expressão romana in vino veritas, a “suruma da bebedeira” (CHIZIANE, s/d, p. 97) fez com que Maria revelasse um segredo antigo:

– O que vocês não sabem – disse Maria – é que cada nascimento tem uma história e cada acção uma razão. Na minha juventude cometi o mesmo crime, ou melhor, ia cometê-lo. Tudo por causa desse amor amargura, amor escravatura, que transtorna, que enfeitiça, fazendo do amante a sombra do amado. (CHIZIANE, s/d, p. 97)

       A partir desse momento abrem-se as trilhas do enredo d’ “As cicatrizes do amor”. Aliás, o título do conto já nos fornece um caminho de compreensão, partindo do próprio sentido da palavra cicatriz: resultado de uma lesão que, se for grave, pode durar a vida inteira. Desse modo, numa perspectiva deleuziana, podemos entender essa cicatriz como um signo da memória. Segundo o pensador francês:

O que nos força a pensar é o signo. O signo é objeto de um encontro; mas é precisamente a contingência do encontro que garante a necessidade daquilo que ele faz pensar. O ato de pensar não decorre de uma simples possibilidade natural; ele é, ao contrário, a única criação verdadeira. A criação é a gênese do ato de pensar no próprio pensamento. (DELEUZE, 1987, p. 96)

       A contingência desse encontro faz com que Maria reviva sua experiência violenta: “Ergue os olhos para o céu na súplica do silêncio. A mente recua na trajectória distante, mais veloz que a estrela cadente. Baixa os olhos para a terra infértil, salpicada de ervas tisnadas” (CHIZIANE, s/d, p. 97) e, como se estivesse em uma arena, começa o seu relato que refaz o autoritarismo da supremacia masculina:

Lembro-me da noite sem lua, quando debaixo do cajueiro disse sim, ao homem dos meus sonhos. O régulo de Matutuíne, meu pai, disse não a esse pobre, sem gado para lobolar a filha do rei. Ao meu homem ultrajado não restou outra alternativa senão procurar o lenitivo das mágoas do outro lado da fronteira, em Johannesburg, deixando-me o ventre semeado. Nos nove meses de gesta, minha alma em suplício consumiu facadas. Quinze dias depois do nascimento da criança, o meu pai disse: fora desta casa (CHIZIANE, s/d, p. 98).

       Vale atentar, na citação, para o fato de que, em momento algum, Maria aparece como sujeito de seu próprio desejo, tampouco argumenta sobre o fato; esse silêncio representa a submissão diante da lei. Isso se dá porque historicamente criou-se a concepção essencialista de uma identidade feminina ou das mulheres, ou seja, uma natureza comum a todas as mulheres (servil, frágil, incapaz). A essa diferença, com base na biologização, está vinculado um projeto de exclusão, que vai além de colocar o homem como o centro e a mulher como a margem; encontra-se, também, a formação androcêntrica de uma identidade que constrói um sujeito unificado, autônomo, absoluto. Essa construção, fundamentada no determinismo e na naturalização, fornece ao homem o discurso e à mulher, o silêncio. Como esclarece Eduardo de Assis Duarte, tais organizações hierárquicas e hegemônicas voltam-se, “portanto, não apenas para a imposição de verdades tidas como essências absolutas, mas, sobretudo, para o estabelecimento de procedimentos de controle social, cultural e político” (DUARTE, 2002, p. 13).

      Após ser colocada para fora de casa e desprezada por todos os amigos e parentes, Maria, contrariando a visão essencialista e universalista de gênero, se destaca como uma figura diretiva que almeja alcançar seu objetivo: reencontrar o seu “homem dos sonhos”. Senão vejamos:

Amarrei a capulana bem firme; com o bebê bem seguro nas costas, jurei: os empecilhos que obstam a minha estrada serão removidos pela minha mão. Chegarei a Johannesburg, minha terra de promissão. Abandonei a casa no ritual dos galos cerrando as cortinas vesperais. Segui o rasto do cruzeiro do sul, caminhei dias, e noites suficientes para contar todas as estrelas do firmamento (CHIZIANE, s/d, p. 98).

       A contemporaneidade revela que a identidade feminina engendrada pela sociedade patriarcal começa a se deslocar em virtude da emancipação dos sujeitos sociais. Daí, a importância da literatura abordar a imagem de uma mulher desafiadora, mesmo que intimidada pelo sistema falocêntrico. Os preceitos sociais, altamente punitivos, o medo do desconhecido e a insegurança podem conseguir mantê-la submissa, mas o próprio reconhecimento de sua condição é o primeiro passo rumo ao encontro de sua identidade.

       A protagonista segue contando as agruras por que passou até chegar o momento em que mais impressiona os seus ouvintes: quando pretendeu abandonar sua filha em uma moita e, em seguida, conheceu o arrependimento:

De repente o coração pulsou: uma moita cruzou o horizonte dos meus olhos. Será ali, será ali, o cemitério da minha filha, e à noite, bandos de corvos deliciar-se-ão com o corpo frágil do meu rebento, ai!...

(...)

Mergulhei na moita, paraíso ilícito. Os amantes também lá estavam, protegendo os abraços dos olhares indiscretos, e eu nem os vi, empenhada que estava na minha tarefa secreta. Adeus, fruto do prazer e dor; amor de fervor, adeus! Abandonava o lugar em passos de fuga; o casal que me espiava lançou gritos, alarmando os transeuntes que me rodearam. Uma velhota enxotou os curiosos, levou-me à sua casa para tratar da criança. Nem com isso desisti de meus intentos. (...) O sono venceu-me. No sonho vi a minha pequena já crescidinha, rindo em gargalhadas rasgadas nos braços do pai. O choro da criança interrompeu o meu sonho, transportando-me para o novo sonho desta vez bem mais real: acriança sorria, vencendo a agonia. (...) Os espíritos do mar venceram o mal, amém! Pelo sinal da Santa Cruz (CHIZIANE, s/d, p. 98-9).

       Segundo a própria Maria, “Irmão é aquele que te abraça, na desgraça” (CHIZIANE, s/d, p. 98). Em seu périplo rumo a Johannesburg, encontrou pelo caminho mãos que se estenderam para que ela pudesse chegar ao final de sua aventura e encontrar o seu homem e conhecer aquilo que ela acreditou ser a “verdadeira felicidade” (CHIZIANE, s/d, p. 99).

      Perante toda a trágica estória, os ouvintes permanecem estáticos, pois “o relato ultrapassa o limiar de uma recordação” (CHIZIANE, s/d, p. 98), é um fato como muitos que já foram e outros que ainda virão. No entanto, como sugere a narradora, não há compaixão dos ouvintes. Atrelados a um sistema ideológico, não conseguem compreender o episódio por outro viés. Isso acontece porque, como nos explica o filósofo francês Louis Althusser, a ideologia não é um “sistema de relações reais que governa a existência de indivíduos, e sim a relação imaginária daqueles indivíduos com as relações reais em que vivem” (ALTHUSSER, 1971, p. 165). Segundo a narradora:

Agora pergunto, Maria? Que razões te levam a desvendar os aposentos da miséria ao público, estampando a vergonha e a desonra no rosto de teus filhos?

Bailas, Maria, agora completamente desnuda. As tuas curvas são ardentes, confirmam os homens, mas as tatuagens que exibes são as mais secretas e as mais sagradas do teu mundo.

(...)

Por que escondes os olhos, Maria? Talvez te envergonhes dos teus actos, talvez te arrependas do teu relato, ou mesmo te revoltas contra a sociedade que te conduziu aos caminhos da tragédia. As cicatrizes do amor rasgaram as crostas e jorraram um líquido sangue que escorre pelas curvas de tuas pálpebras (CHIZIANE, s/d, p. 99).

       E, ao final, revela:

Na caserna de Maria há uma mulher que chora, e os soluços sincronizam com a makwayela das palmeiras. Os corvos em revoada grasnam agouros, as nuvens já abalaram e o sol voltou a abrasar. As águas do Índico balançam com mais força sob o domínio do vento sul. No coração da noite haverá tempestade (CHIZIANE, s/d, p. 99).

       Sendo a literatura um espaço metafórico de denúncia, não podemos entender o destino da personagem como a representação do insucesso das mulheres. O conto estudado aponta para a necessidade de uma tomada de decisão que liberte as mulheres, em suas diferenças, das imposições dualistas, que ditam como devem ser e reagir como “Mulher”, numa essencialidade defendida pela naturalização e biologização dos gêneros, em determinados momentos das suas vidas. Remete ainda para a importância da conscientização de suas posições de marginalizadas e oprimidas sociais como ponto de partida para a sua emancipação.

      Desta forma, pelo enfoque das relações de dominação e do uso do poder utilizados pela ideologia hegemônica, em “As cicatrizes do amor”, toma importância o lugar das mulheres nesse contexto crítico, fazendo visível a diferença sexual num jogo de estratégias patriarcais.

REFERÊNCIAS:

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